O mundo da IA e a crise dos salários
- Marcus Bruzzo
- 8 de abr.
- 5 min de leitura

À medida em que colocamos cada vez mais inteligências artificiais para "trabalhar" substituindo pessoas, teremos menos salários sendo injetados no comércio através do consumo, o que por sua vez, causará um abalo nas demandas, que afrouxará as ofertas baixando a produção. Um ciclo autodestrutivo que pode ser sinal de que o modelo econômico vigente não sustenta as suas próprias premissas basilares de inovação constante.
Da perspectiva de quem investe dinheiro para fazer dinheiro, o meio produtivo ser operado por seres humanos ou por máquinas é indiferente, como bem lembrava Andrew Feenberg, filósofo da escola de frankfurt, estudioso da teoria crítica da tecnologia. Veja este vídeo em que abordo com maior profundidade.
A métrica final é bastante clara: maior margem de lucro, melhor o modelo produtivo. Geralmente expresso pelos termos da “eficiência”, termo que parece óbvio a princípio, de fato, oculta uma longa lista de fatores que vão desde a velocidade (mais popularmente salientada), até a perda de qualidade sem perda de margem de lucro. Por isso comemos produtos "sabor comida" que biologicamente não são nem considerados alimentos. Isso se deve a ser eficiente fazer produtos comestíveis dessa forma, uma vez que barateia o custo de produção em cadeias ágeis de compostos químicos atomizados e fornecidos ao montador final do produto “sabor chocolate” ou qualquer outro industrializado comestível. Mais barato e muito mais rápido (eficiente) do que plantio e colheita para alcançar o mesmo lucro, já que a moeda, no fim, será a mesma.
Isso, claro, serve bem para indústria de “alimentos” quanto para quaisquer outras indústrias. O meio produtivo é indiferente, se a margem de lucro é a única métrica. A transformação de decisões por esse único pivô da eficiêntividade é tamanha, que indústrias inteiras migraram gradualmente até mesmo suas áreas de atuação, abrindo mão daquilo que produziam na fundação das fábricas. Pegando o chocolate para exemplo, as fábricas de barras de chocolate que antes processavam cacau, atuam hoje como empresas químicas na fabricação do composto sintético que vendem com sabores inspirados nos processos das indústrias anteriores. Pouco importa o mercado, o produto é o lucro. O sabor virou artefato de nostalgia; lembra-se quando era chocolate? Pague por essa memória!
Se nos voltarmos para a esfera da atuação dos seres humanos no interior dessas indústrias, os momentos de crise de funções não foram raros. A automatização de processos por meio de máquinas e o constante deslocamento de mão-de-obra humana entre funções mortas e funções novas demonstra claramente a questão. Com vista da história, ao contrário do que se diz popularmente, quando chegam máquinas mais “eficientes” a indústria não encontra outras funções para humanos deslocados do processo produtivo, mas o revés. A humanidade sempre se fez valer de sua própria criatividade para se inserir no mundo cadentemente industrializado. A atualização humana constante se deve à própria humanidade e seu incrível limite de resiliência criativa, não a qualquer responsabilidade dos "mercados" em abarcar gerações de humanos tecnicamente "defasados". Essa força criativa não só manteve a atuação humana presente nas indústrias por meio da invenção do “profissional”, isto é, o período de tempo em que o humano vende sua produtividade por meio de especialização, como acaba salvando o próprio mercado por meio de salários que estes seres humanos aceitam receber.
Salários são a sobra do processo produtivo centralizado, que retorna aos profissionais como forma de comprar seu trabalho em um mercado de trabalho. Pessoas vendem seu trabalho a valores cada vez mais "competitivos", significando, menores. O superávit da produção, acima da soma de todos os trabalhos contratados, resta como lucro total sobre os valores negociados, o lucro "real". Mas esses salários humanos cumprem outra função ainda. O dinheiro dado a humanos que produzem coisas, embora sempre muito abaixo do que produzem, torna-se moeda de consumo, e retorna ao mercado, porque pessoas precisam comprar coisas.
O consumo é reinvestir o salário em produtos que são, eles mesmos, a ponta do processo produtivo que paga outros salários em outras empresas. O que isso faz, é refatiar gradualmente essa parcela paga aos humanos gradualmente, em cada transação, até que acabe completamente tornado superávit de quem investe. Uma parte do seu salário vai para um produto que compra, uma parte desse dinheiro vai para o salário de outro trabalhador, que irá comprar outros produtos.
A automação muda tudo
A automatização das fábricas, a vapor ou à energia, é profundamente diferente dos processos atuais de Automação.
Automatizar, ressaltava o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, é garantir a repetição irrefletida sob comando humano de início e fim. Produz igualmente até um humano parar a máquina.
A automação, será em nosso contexto, o emprego de tecnologias que independem de humanos para iniciar e parar porque decidem. Máquinas autônomas são máquinas que decidem o ponto exato onde parar e essas são historicamente novas.
À medida em que IAs automatizam processos a menores custos de operação, que, como dissemos, aumentam a lucratividade por tanto por eficiência quanto por exclusão do salário, nós nos depararemos com um cenário socialmente desconhecido. A troca produtiva de mãos-de-obra que ainda exigiria humanos por suas decisões e capacidade reflexiva, até criativa, geradora de valores, por tecnologias de IA que “criam” e “decidem” sem humanos, coloca em risco a velha mecânica dos salários.
Embora um absurdo, os salários eram o absurdo que fazia a máquina como atualmente engendrada funcionar. É a forma em que uma parcela do valor total da produção era reinvestido naquilo que produz, humanos ou máquinas, e que, por consumo, aos poucos retornava ao superávit centralizando riquezas no fim das rodadas sequentes de salário-consumo. Como ficaremos agora com a contratação de máquinas que não recebem salários para trabalhar?
Evidentemente, o primeiro impulso seria dizer que não muda muita coisa uma vez que as empresas que alocam essas tecnologias de inteligência artificial também empregam os seres humanos, mas as escalas são certamente diferentes. Uma única assinatura de inteligência artificial pode substituir um número imenso de administradores com as capacidades que já vemos em 2026, basta imaginarmos como seria esse cenário em 10 anos. Por mais caras que sejam, assinaturas dos planos de inteligência artificial ainda serão infinitamente mais baratas do que a necessidade de pagamento de um salário, com todos os direitos e recolhimentos devidos, além de férias, FGTS e aposentadoria.
Uma segunda questão seria desterritorialização da mão de obra, ou melhor, desterritorialização do salários. Inteligências artificiais operando em empresas brasileiras vão levar o investimento para outros países, por exemplo, para as empresas da Califórnia nos Estados Unidos. E não apenas o dinheiro, mas o conhecimento e os registros dos dados estratégicos de atuação de um país inteiro podem ficar nas mãos de um conjunto pequeno de empresas de um país estrangeiro.
Isso nos leva à cena final em que, à medida em que colocamos cada vez mais inteligências artificiais para "trabalhar" substituindo pessoas, teremos menos salários sendo injetados no comércio através do consumo, o que por sua vez, causará um abalo nas demandas, que afrouxará as ofertas baixando a produção. Um ciclo autodestrutivo que pode ser sinal de que o modelo econômico vigente não sustenta as suas próprias premissas basilares de inovação constante e emprego de novas tecnologias na produtividade em busca do aumento do lucro por aceleração. Com salários, seres humanos estão perdendo grande parte do valor sobre o que produziram, mas sem os salários inauguramos um mundo ainda desconhecido que só encontrará saída como utopia ou distopia.
____
📚 Meus livros
1️⃣ Seremos Dados - A filosofia da perda do espaço humano para a inteligência artificial
2️⃣ O Universo dos Sonhos Técnicos - Como as inteligências artificiais redefinirão nossa imaginação
3️⃣ Um Minuto e Meio - Temas urgentes da filosofia que mudarão sua percepção do mundo (mas não couberam em um minuto e meio)
📝 Artigos : https://www.marcusbruzzo.com.br/blog
🧠 Entre no grupo Filosofia Existencial:
Redes



Comentários