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A mentira sobre ler muitos livros. Demanda por ler e a frustração por não conseguir

Pare de se cobrar sobre quantidade de livros que leu. Historicamente, nunca se leu tantos livros.



Você certamente já sentiu a demanda por ler livros e a frustração por não conseguir. A ansiedade tem diversas origens pelas demandas contemporâneas de produtividade, opinião, estética e, claro, suposto conhecimento. Mas como todo problema, há curas e há placebos. À demanda irreal sobre a suposta postura de sabedoria, conhecimento, intelectualidade, o placebo, isto é, a saída mais simples, é comprar livros. Compra-se livros porque são mais acessíveis hoje do que nunca antes na história. Mas infelizmente, se tornaram acessíveis praticamente um século após a real necessidade da sua popularização.


A história do livro na história


pela presença do livro na vida humana, e é necessário dizer, nunca foi normal seres humanos lerem muitos livros. A princípio, por milênios a fio, a leitura foi um privilégio estrito de castas sacerdotais e aristocráticas que tinham acesso aos códices manuscritos, às cópias morosamente feitas à mão por monges em vidas monásticas rígidas, nas scriptoria. Essas cópias realizadas pelos monges copistas valeu uma grande fortuna por conta da sua raridade, no sentido em que as maiores bibliotecas universitárias raramente passavam de 1.000 títulos copiados. Ainda antes da prensa de Gutenberg criada por volta de 1440, a posse de um desses livros era destinada a membros da monarquia e alguns cidadãos extremamente privilegiados.


Com a prensa como advento de rápida reprodução de obras prensadas como carimbos, houve uma exponencialização na produção de livros, sobretudo por adequação às demandas instrutivas da população protestante que tomava volume por meio do acesso direto ao texto. Premissa de Lutero, a igreja perde o monopólio do acesso a Deus, e cada fiel poderia ler o texto traduzido para sua língua mãe, com autonomia. A individualidade da fé está posta e é viabiliza pela prensa de Gutenberg contra a hegemonia da igreja. Penso o que Lutero diria das novas igrejas protestantes.


É também esse um momento de profusão das primeiras grandes fake news da história, o que reflete o poder da habilidade de produzir comunicação a grandes públicos sem nenhuma responsabilidade. Donos de terras espalham mentiras, praticamente todas relativas a mulheres consideradas bruxas, em panfletos que se alastram como fogo em palha por vilarejos do interior da Alemanha, contendo histórias terríveis sobre mulheres que incendiavam propriedades, comiam bebês, voavam em vassouras, faziam rituais diabólicos, incitando a população à caça às tais bruxas.

Woodcuts and Witches Brewminate
Woodcuts and Witches Brewminate

A reprodução mecânica de livros barateia relativamente os custos, amplia a disseminação (e doutrinação), mas mantém os livros entre o domínio dos nobres, dos burgueses (em burgos comerciais) e universidades que eram, em geral, da igreja como Oxford, Universidade de Paris e universidade de Bologna.


A leitura de várias obras nunca foi algo comum; saltando no tempo até 1820, é importante notarmos que apenas 10% dos adultos no mundo eram capazes de ler e escrever. Leitura, de fato se torna algo mais próximo de um hábito das classes médias apenas por volta do início do século XX, mas logo em seguida surge o rádio na década de 30.



Depois, a televisão na década de 50 com popularização na década de 60, no Brasil, de fato por volta da década de 70-80 em que a grande massa acessa a tecnologia televisiva. Os livros saem da centralidade quando começavam a se popularizar. Décadas de 90 e 2000 traz as mídias digitais, redes, internet, celulares pessoais com telas, redes sociais, e sabemos como segue. A leitura permanece importante em todas as mídias, mas o livro é uma mídia que trafega informação apenas através da leitura. Este modelo perde gradativamente sua importância.


Período

Localização

Capacidade das Bibliotecas (Volumes)

Perfil do Leitor Dominante

Idade Média

Europa (Mosteiros)

200 - 300

Monges e Clérigos

Idade Média

Europa (Universidades)

< 1.000

Estudantes e Teólogos

Século XIII

Europa (Cidades)

< 50 (Privadas)

Mercadores e Nobres

Século XVI

Europa (Privadas)

Dezenas

Aristocracia e Humanistas


Quando digo que perde a importância, refiro minha falta de que temos outras tecnologias ainda mais capazes de reter informação importante para a humanidade. A informação é o elemento mais importante, os suportes que foram criados historicamente viabilizaram o tráfego ou manutenção dessa informação. O livro fez esse papel por muito tempo, permitindo indicialização e referenciação com a numeração de páginas com uma novidade histórica. Todas as edições que saiam da mesma prensa de Gutenberg tinham a mesma quantidade de páginas, eram idênticas entre si, a página 59 de um corresponde à mesma página 59 de outro. Algo novo.


Essa previsão é importante, porque o conhecimento humano é cumulativo e se faz valer de sistemas de referenciação para esse fim de acumulação. As mídias eletrônicas como Rádio e TV amplificaram a transmissão de mensagens linearmente, mas não ajudam nessa referenciação ao conteúdo. É apenas com as mídias digitais que aparece uma nova possibilidade de estudar, acessar e manipular sob demanda a informação criada pela humanidade. A inteligência artificial adiciona um novo capítulo nessa história, integrando autonomia às máquinas para processamento e manipulação das informações.


Agora, qual a razão desse panorama histórico? O fato de que, sob essa ótica, fica extremamente clara a disfunção de um livro no mundo contemporâneo. E é justamente nesse cenário que eles retornam com o elemento de fetiche. Proposições de marketing se apropriam de uma figura de personas intelectualizadas como parte da construção das figuras desejadas. Além das demandas de beleza, de bem-estar, de positividade ininterrupta, há também a demanda mercadológica da intelectualidade. Ou, ao menos, a imagem dela.


Os livros são objetos fotogênicos; ao lado de uma xícara de café, poucas fotos geram mais Likes nas redes sociais.


Um dia ensolarado, uma mesa próxima a uma janela, vários livros com marcações coloridas, a receita do sucesso estético. Há páginas inteiramente dedicadas a esse tipo de foto, mas o sucesso que elas atraem não tem nenhuma relação com o uso do conteúdo no interior desses livros. De certa maneira, é por isso que, com o advento da inteligência artificial, é até mais prático fazer sucesso nas redes com imagens desse mesmo teor sendo geradas por IA. O resultado é igual. Não precisa ler.


Essas promoções estéticas vão criando um senso de estilo de vida que impõe mais uma necessidade a todos aqueles que passam 9 horas do seu dia trabalhando. Agora além de tudo, também precisam correr atrás de comprar livros. Não se sabe ao certo quais, nem a razão; geralmente, na dúvida, compram livros de autoajuda: Café com Deus Pai, pai rico pai pobre, e outros livros cuja capa contenha a palavra "pai". Deve-se fazer, na verdade, um estudo sociológico aprofundado sobre o fenômeno das prateleiras de livros criadas exclusivamente para aparecer nas reuniões de trabalho, no fundo da cena do Home Office. Agregadores simbólicos de status intelectual, eles pertencem ao movimento mundial dos seres humanos fitness e intelectualizados. Demandas irreais gerando problemas bastante reais; ansiedade, distúrbios de percepção a respeito da própria inteligência, senso de exclusão ou falta de pertencimento, e sobretudo, uma profunda frustração consigo próprio por não conseguir ler o que compra para ler.


Todo esse doloroso processo está assentado em uma grande mentira oriunda da promoção cultural e mercadológica, em larga a escala, que tenta vincular a posse de livros com uma imagem de estilo de vida.

A introdução sobre a história do livro que iniciou esse texto deve fazer sentido agora. Nunca na história humana a leitura de diversas obras foi comum. Nunca houve dinheiro disponível para acessar tantas obras, nem sequer tempo disponível para lê-las, exceto aos que fossem muito ricos e contassem com muito tempo disponível, ou que tivessem como profissão a necessidade de ler diversas obras para pesquisa. Bibliotecas pessoais eram símbolos de status palaciano entre os iluministas e os modernos burgueses, mas de forma alguma significa que essas pessoas tenham passado por cada uma das obras em sua completude.


Devo jogar meus livros fora?

Evidentemente não se deve jogar os livros fora, você pode doá-los. Acumulamos livros como acumulamos qualquer outra coisa, mantendo-os por afeto ou ego. Mas verifique a razão pela qual você tem diversos livros, quantos deles você de fato leu ou gostaria de ler, e quantos não foram comprados apenas por um impulso de pertencimento, por demanda contida de prova a si próprio a respeito das expectativas de intelectualidade, que como disse, nunca foram reais na humanidade.


Existe, entretanto, umas reflexões possíveis de tirarmos disso tudo;


  1. Tenha poucas obras, mas tenha as obras que de fato queira ler;

  2. Foque em alguns autores poucos e autoras apenas, e leia sua obra inteira;

  3. Especialize-se em algum tema que te move, que lhe gera paixão;

  4. Não converta leitura em índices de produtividade;

    1. isso nunca foi dessa forma;

    2. comprar livros e não ler não torna ninguém mais inteligente.

  5. Aprenda a dizer: não li, não conheço. Porque ninguém leu tudo.


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📚 Meus livros


1️⃣ Seremos Dados - A filosofia da perda do espaço humano para a inteligência artificial


2️⃣ O Universo dos Sonhos Técnicos - Como as inteligências artificiais redefinirão nossa imaginação


3️⃣ Um Minuto e Meio - Temas urgentes da filosofia que mudarão sua percepção do mundo (mas não couberam em um minuto e meio)



🧠 Entre no grupo Filosofia Existencial:

Redes

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BOOKBUB. New Study: How Many Books We Read in a Lifetime., 2020. Disponível em: https://www.bookbub.com/blog/news-study-how-many-books-we-read-in-a-lifetime. Acesso em: 10 mar. 2026.


GALLUP. Americans Reading Fewer Books Than in Past. Washington, D.C.: Gallup, 2022. Disponível em: https://news.gallup.com/poll/388541/americans-reading-fewer-books-past.aspx. Acesso em: 10 mar. 2026.


IBGE. Expectativa de vida chega a 76,6 anos em 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45275-expectativa-de-vida-chega-a-76-6-anos-em-2024. Acesso em: 10 mar. 2026.


INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil: 6ª edição. São Paulo: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Retratos_da_Leitura_2024_13-11_SITE.pdf. Acesso em: 10 mar. 2026.


LYONS, Martyn. A era de ouro do livro: do século XIX à alfabetização de massa. Revista da Anpoll, Florianópolis, n. 36, p. 105-131, jan./jun. 2014.


MORAES, Rubens Borba de. Livros e bibliotecas no Brasil. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1979.


OUR WORLD IN DATA. Two centuries ago, only 1 in 10 adults could read. Today, it’s almost 9 in 10., 2024. Disponível em: https://ourworldindata.org/data-insights/two-centuries-ago-only-1-in-10-adults-could-read-today-its-almost-9-in-10. Acesso em: 10 mar. 2026.


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WORDSRATED. How Many Books Does the Average Person Read?, 2026. Disponível em: https://wordsrated.com/how-many-books-does-the-average-person-read/. Acesso em: 10 mar. 2026.

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