Cursinho pré-vestibular: Mercado parasitário da memorização
- Marcus Bruzzo
- há 4 dias
- 5 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Em Martha Nussbaum, a educação de Humanidades ou barbárie.
O espectro do raciocínio meramente instrumental que ronda as escolas atuais. Vivemos naquilo que chamei em outras ocasiões de "o mercado da memorização”, algo que abarca uma longa linhagem logística de produção, organização e tráfego de parcelas de informação prontas, com baixíssimo envolvimento crítico e criativo. Escolas são indústrias de agentes sociais com o mínimo conhecimento viável (MCV) para execução média de demandas produtivas. São bilhões de alunos ao redor do mundo sujeitos a sistemas de memorização como única validação intelectual.
De onde vem esse modelo?
Essa é uma condição educacional que floresce de alguns limites práticos em grande medida, porque a memorização acaba sendo o limite da avaliação de competências de um ser humano em disputa com outros seres humanos. Posso medir sua qualificação estudantil através da sua capacidade de memorizar fórmulas, ou respostas prontas, que lhe auxiliem testes, provas e vestibulares, sendo esses os mecanismos de orquestração dos postos sociais que os indivíduos ocupam. Melhores suas notas, melhor sua colocação em concursos, e por decorrência, maiores as chances de participação em uma elite intelectual do planeta. A mediação fica sendo a memorização, à qual imensas indústrias parasitárias são criadas, como cursinhos pré vestibular, ou outros recursos que focam na prática da memorização como instrumento de diferenciação social.
É evidente, a essa altura, que a memorização é posta no plano do desenvolvimento da sociedade com tamanha ênfase, não por sua característica de valorização intrínseca, no sentido de que a memorização seja comprovadamente um aspecto de imenso valor para os fins humanos, mas simplesmente porque reflete a única forma vigente de distinção intelectual na lida com grandes massas. Os limites vão ficando claros: a memorização contempla o uso de um órgão biológico humano, o cérebro, para sustentação de partículas de informação potencialmente articuláveis como fórmulas ou citações.
Qual o problema disso?
O cérebro humano é posto em competição direta com mídias historicamente criadas cuja característica é sustentar parcelas de informação, tais quais mídias rudimentares como os tabletes de barro do Sumérios em escrita cuneiforme, os pergaminhos, os códices ainda escritos por monges copistas, ou os livros multiplicados pela prensa de Guttenberg a partir do século XV. Tecnologias rudimentares mas plenamente eficazes na manutenção de parcelas de informação disponíveis a contemplação posterior. Evidentemente, aí devemos inserir as mídias como disquetes, cds, DVDs, HDs e SSDs, em formatos de memória ROM e RAM (acesso linear ou randômico), e toda sorte de aparatos técnicos que nos prestam serviço de manter informação estocada, fornecendo uma interface para recuperação dessa informação.
O mercado da memorização está tão profundamente engendrado socialmente, que ao se tornar uma instituição solidificada à qual chamamos “escola”, com todos os seus processos gestivos interiores, nos faz esquecer que esse esforço não faz mais do que criar gerações de seres humanos como máquinas incompetentes para memorização. Não é necessário em embasamento científico - embora não falte - para demonstrarmos o quão péssimos somos com a manutenção de grandes volumes de informação. Na verdade, o cérebro opera pela segmentação das informações tidas por importantes para a sobrevivência, e naturalmente, todo tipo de conhecimento técnico acaba sendo relegado a uma subcategoria de informação a qual o cérebro tende ao descarte.
A figura se assevera
Se por um lado a memorização é inútil porque dispomos de tecnologias mais capazes para os fins de manutenção da informação, e se por outro lado, a natureza do cérebro e sua forma de lidar com a informação não contribui pra esse fim, o que estamos fazendo?Criamos milhares de instituições preocupadas apenas com a segmentação de indivíduos através de memorização temporária de parcelas potencialmente inúteis de informação. A memorização não é destinada ao engrandecimento das capacidades humanas, nesse sentido, vivemos entre orquestrações logísticas de diferenciação de indivíduos em grandes multidões, através da sua capacidade individual de memorização temporária de algumas informações para fins de provas, testes e exercícios de distinção.
Frente a esses cenários não deveriam restar dúvidas; a ênfase e direção dos esforços atuais sobre educação devem ser completamente alteradas, na esteira do que Martha Nussbaum indica. Trata-se de orientarmos-nos a “competências igualmente decisivas”, diz ela, “que correm o risco de se perder no alvoroço competitivo”. Quais são essas competências? Ela elenca algumas, como: “competências decisivas para o bem-estar interno de qualquer democracia e para criação de uma cultura mundial generosa”, e que sejam essas competências orientadas para geração de capacidades de tratar “de maneira construtiva dos problemas mais prementes do mundo”. (Nussbaum, p.8)
Quando tratamos de objetivos, fins, um estado desejado ou a culminação de um conjunto de esforços em um dado resultado, todos esses são as fontes da filosofia, por que trata-se da ciência dos inícios e dos fins. Às coisas meio, todas as outras ciências humanas pode ser destinadas, afinal, porque operam pelo raciocínio instrumental. Dados memorizados o suficiente para o recall no momento produtivo oportuno. Parcelas de informação útil disponível para aplicação.
Nussbaum indica no seu trabalho a razão pela qual democracia precisa das humanidades. Se lermos as entrelinhas dessa premissa, ao basearmos toda a constituição do nosso viver em sociedade em conhecimentos estritamente técnicos e instrumentais, baseados em mercados de memorização, não podemos contar com nenhuma garantia de que a democracia seja automaticamente gerada, que brote dos vãos da máquina produtiva. A criação de uma cultura mundial generosa só pode ser resultado de esforços intencionais nessa direção a partir da definição de uma utopia de democracia que contempla essas qualidades, e a partir da qual revisaremos todos os processos anteriores de educação das novas gerações. Mas as pessoas que criamos continuamente são operadores de funções programadas, detentores de parcelas de informação, como decorrência de todos os esforços educacionais de nossas instituições.
O dissenso é latente: orientamo-nos para massas de estocagem de informação em bases biológicas, redução direta do Ser(v.) humano a potências maquínicas inferiores. Derivação da necessidade de sistemas de distinção, a produtividade competitiva educacional nos rendeu como resultado uma civilização inapta ao recurso da reflexão crítica, enquanto empenhada em memorização por meio de infinitas técnicas. Perderemos paras as máquinas continuamente.
Nos deparamos com os custos democráticos da manutenção de uma espécie como estoque biológico de dados. Todo esforço para a operação reflexiva foi deixado de segundo plano em ambas dimensões, a qualidade dos dados estocados em cérebros, e a habilidade individual de manipulação e autoria sobre essas informações. Impossível não lembrarmos do termo “replicante” aqui. Replicando fórmulas como habilidade distintiva que renderá sucesso financeiro e de carreira.
Precisamos reinvestir nas ciências humanas e assumirmos a evidente superioridade das máquinas em gestão de dados, assim que compreendermos a mensagem de Martha Nussbaum: no fim, a democracia, em geral, não é um acidente de percurso.
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As escolas funcionam como indústrias voltadas para a memorização, produzindo agentes sociais com conhecimento mínimo viável para atender demandas produtivas.
O sistema escolar se baseia em avaliar competências através da capacidade de reter informações, impulsionado por exames, provas e vestibulares, fomentando indústrias como cursinhos e materiais de memorização.
O cérebro humano não é eficiente em armazenar grandes volumes de informações, especialmente diante de tecnologias criadas para esse fim, como livros e dispositivos digitais.
A ênfase na memorização resulta em gerações de indivíduos treinados para retenção temporária de informações, sem desenvolvimento crítico ou criativo, servindo apenas à seleção social.
Inspirando-se em Martha Nussbaum, o texto defende a valorização de competências voltadas à democracia, ao pensamento crítico e à criação de uma cultura mundial generosa, em oposição ao ensino puramente instrumental.
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Ref:
Nussbaum, Martha C. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades; tradução Fernando Santos. - São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2015.




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