O Dostoiévski de Pondé: Aversão ao hoje com razões do passado
- Marcus Bruzzo
- 16 de mar.
- 10 min de leitura

O intelectual-público
Pondé, um intelectual-público brasileiro bastante conhecido, é uma figura idiossincrática a quem, em quase todas ideias, me oponho, mas inegavelmente - conquanto honestidade revele triunfos - é um dos mais capacitados e curiosos articuladores intelectuais atuais dentro dos seus escopos. Enquanto outros falam de felicidade, Pondé fala de niilismo em Dostoiévski. Críticas, se as tenho e as pudesse fazer por alguma razão, jamais seriam por incompetência. Ao contrário de outros famosos pensadores que vendem mais o “pensador” que o “pensamento” - os demais dessa alcunha envergonhada de “intelectual-público” - Pondé me parece verdadeiramente engajado em uma reflexão conceitual, cultural, com boas bases a despeito de seus muitos vieses - que não são omitidos, o que é positivo - e ímpetos criativos na tecitura de suas ideias neoliberais freudianizadas, o que soa como um charme acadêmico e atrai a muitos.
Sua teoria, um edípico-financista, é uma articulação que abre portas a demandas transcendentais ainda místicas mas nunca pronunciadas por ele, sobre uma certa ordenação do mundo; Pondé produz um texto de "hegelianismo de fundo" quando faz um corte histórico de sua crítica. O Deus de Pondé se esgueira entre acidente e determinismo, em um Deus sive Commercium panteísta capital. Ainda, Pondé, à minha percepção, acerta na crítica ao positivismo, faz boa análise do niilismo e seus desdobramentos, suporta a troca dos deuses após Nietzsche tê-lo matado, mas do século XX em diante, liga a marcha automática da história e vê natureza no capitalismo iluminado a LED. Pondé, ainda, é um ótimo provocador de reflexões e discussões, e talvez fosse esse mesmo o papel de um "intelectual-público" se isso existisse. Mas não foco, de princípio, na metafísica do mercado como produto do espírito transcendental hegeliano que tempera o texto de Pondé em diversos pontos; e ele mesmo denuncia o "hegelianismo de fundo" nos que chama de "humanistas dogmáticos". Aqui, o enfoque precisará ficar sobre sua crítica ao “niilismo racional”.
Crítica e Profecia
Pondé em seu "Crítica e Profecia" do início dos 2000 (carece vermos se se mantêm as premissas ainda hoje), encontra em Dostoiévski uma aversão ao socialismo. Estofo ou alavanca intelectual para Pondé buscar apoio às suas críticas àquilo que acoberta sobre o termo de “dogmatismo humanista pós-estruturalista”, ou mais simplesmente, "as esquerdas". Os pontos de tração de suas premissas com aquelas de Dostoiévski são evidentes de entrada, mas vão ressaltar o erro por esse mesmo motivo mais tarde: vejamos que, o que incomoda Pondé, é que esse “dogmatismo humanista é niilista e não o assume”, ele diz. Um grave deslize de leitura sobre o humanismo e sua relação com niilismo após o século XX, e já começam a aparecer os problemas da crítica anacrônica. Na verdade, o humanismo existencialista do tempo em que Pondé vive, já tendo passado há muito por um Sartre, é um niilismo contingencial que torna o nada em responsabilidade e liberdade radical em fardo existencial. Oposto, evidentemente, ao sonho da "liberdade liberal" iluminista ainda impregnado no capitalismo, do poder escolher o que comprar, montar sua identidade por aquisição dos bens disponíveis em indústrias do entretenimento, a liberdade do niilismo humanista trata de ter que se auto-criar, o ser para-si. O humanismo é niilista, e assume faz tempo, ao menos desde Sartre no existencialismo ateu.
Mas Pondé se encontra em um Dostoiévski do século XIX. As direitas, em geral, buscam instrumentos do passado para análise de problemas inaugurados hoje, imprevistos antes. Acontece nas esquerdas também, quando buscam Marx como fonte da explicação do capitalismo atual, pós-metalista, de mercados de especulação, tráfegos e produtos digitais, em rede global e agora, plataformizado no tecnofeudalismo de Varoufakis. Marx fez excelente diagnóstico no seu tempo, quebrou inercias históricas de crença em natureza das relações humanas, mas jamais seria lupa suficiente para as minúcias do contemporâneo. Isso, Pondé sabe, mas é necessário considerar aos seus pares intelectuais igualmente.
Apesar do "verticalismo inocente" que Pondé denuncia em Dostoiévski, uma teologia demasiado fantasiosa para um homem do XIX, o encontro dos postulados nele se dá pelo fato de que seja precisamente esse dogmatismo-humanista o mesmo aspecto que a crítica religiosa dostoievskiana ataca. No seu tempo. Das minhas leituras de Dostoiévski, devo dizer, é fato até aqui. Fato corroborado em grande medida também por Frederick Copleston, embora esse, ao contrário de Pondé, parta da história da relação de Dostoiévski com a política desde cedo, e do seu conturbado relacionamento com o socialismo até sua prisão política na Sibéria e final celeuma com os proponentes do “Palácio de Cristal”, metáfora para socialismo que Dostoiévski recorrentemente utiliza. Dostoiévski posteriormente relatou suspeitas sobre o Socialismo ser a substituição do Deus pelo homem. O que faz ainda mais sentido na Rússia porque, deixo o princípio, aponta Copleston, o socialismo russo foi extremamente contrário à religião, sobretudo a igreja ortodoxa. Feuerbach, provavelmente nome mais importante da viragem para o século XIX, também marcou Dostoiévski;
Dostoiévski tinha tido experiência das atitudes de Petrashevsky e Speshnev, e o pensamento de Feuerbach, com sua substituição da antropologia pela teologia, tinha deixado uma impressão duradoura em sua mente. (Copleston)
O conhecimento de Dostoiévski sobre o socialismo antecedeu sua introdução ao círculo Petrashevsky. Ele já tinha ouvido muito sobre isso de Belinsky, com quem ele tinha desfrutado de uma amizade de curta duração.
Mas Copleston tem ainda outra tese: Dostoiévski nega o Palácio de Cristal por sua explícita naiveté política, enquanto propõe uma comunidade universal buscando saídas nas raízes da cultura russa como salvação do mundo (conceito de Pochvenniki). Ainda, sua visão sobre socialismo mantém-se em disputa, sobretudo por suas alegações posteriores, Copleston completa:
É certo que ele tinha repudiado o socialismo como ele entendia o termo, a saber, socialismo ateu, socialismo que substituía a Humanidade por Deus. Mas é discutível que o que ele queria era uma forma dessecularizada de socialismo russo (Copleston)
A crítica de Dostoiévski de fato abarca os tais “especialistas na felicidade coletiva”, pregando a independência da vontade, um individualismo em termos práticos, hoje, inegável em qualquer espectro político, mas no imperialismo russo, impensável. Dostoiévski se opõe, sobretudo ao “viver confortável”, dizendo que não é isso que deseja a humanidade, de fato, ao contrário dos intentos socialistas de uma civilização planejada como prometido em sua época. Novamente, o socialismo apenas antecipou, se muito, questões abarcadas pelo capitalismo de nossa época. Dostoiévski nega o mundo do cálculo e das ciências positivas como saída única, vincula esses ao socialismo das fórmulas de transformação do mundo (a tabelinha). Pondé toma dessa fonte aos goles, joga sua água pra cima e mergulha.
Mas Dostoiévski não é monofacetado assim. De fato, nos convida a ouvir atentamente aos gemidos de dor de dente do homem instruído do século XIX. Dostoiévski fala apenas do seu tempo, é claro. Esse é o homem tocado pelo progresso da civilização europeia que ele via. Como é ridículo seu gemido, ele diz, e como isso o faz perder os traços de respeitabilidade frente àqueles a quem sua figura se impunha inquestionável. Ele fala do progresso técnico que começa a causar dores até mesmo em seus proponentes europeus esclarecidos, incluído aqui o progresso comercial. Pondé não considera os pontos dessa ótica. Dostoiévski questiona os estatísticos e economistas que tentam classificar o que é vantajoso para o homem (riqueza, liberdade, bem-estar) baseando-se em fórmulas científicas e econômicas, ignorando a vontade humana que muitas vezes busca o prejuízo por pura independência.
As trações são claras, mas e os pontos cegos? Lá a crítica era sobre a novidade do socialismo, o Palácio de Cristal, mas hoje, qual diferença faz a metáfora, se os meios se alteraram para o neoliberalismo tecnocientífico, e ainda compramos essas mesmas ilusões na sociedade da performance e do bem-estar, da gestão científica da vida humana e do secularismo mitologizado capitalista? Ao não conceber esse deslocamento, ainda que por imaginação, de Dostoiévski para os nossos tempos, e a partir daí então, lançar-se nos seus braços, Pondé, a meu ver, revela sua mística. Está engajado em uma empreitada igualmente mito-política.
O dogmatismo humanista pós-moderno ao qual ele se opõe, por segunda lei de Newton, o joga para o campo do “fatalismo psicologista pré-moderno”. Pondé vê inerência e natureza nas relações que oculta sob o pano morno de um freudianismo malthusiano que, não se pode negar, vela sempre um darwinismo social. A inerência da distinção, do estado de natureza que, ainda que distinto do hobbesiano do todos contra todos, é do ego contra todos os egos, sem visão de que o ego se mantém em sociedades não geridas rigidamente, faz de Pondé algo do fatalismo psicologista pré-moderno.
Um Pondé do niilismo à Petersburgo
No contexto de Dostoiévski, na segunda metade do Século XIX, especialmente por volta de 1870, é bastante clara crítica ao conceito de socialismo, um socialismo extremamente inocente e fantástico, que previa o parto de uma nova civilização a partir da iluminação ética e responsabilizante por uma revolução domada segundo o valor do humanismo histórico e dialético: Amanhã - acreditavam - todos após a revolução, serão imbuídos de um senso comunitário do qual emergiria o mundo em uma condição internacionalista de fraternidade humana pacífica. Risível no mínimo, e justificativo das posturas críticas aos socialismos Fabianos vários nas facetas que tomaram até idos da segunda metade do século XX, quando a máscara cai com a experiência Soviética e outras. O socialismo de princípio era muito inocente. Mas, a Terra gira, perestróikas acontecem, gulags vão e vem, propostas mudam, pautas se transformam, e políticas evoluem porque são todos produtos históricos. Socialismo hoje não diz o mesmo que dizia o vocábulo do século XIX na rússia imperial.
Assim o sendo, nem socialistas iniciantes em 2026 partiriam necessariamente de premissas metafísicas do retorno ao éden como essas que citei. O mundo capitalizado invocou outras visões, outras dinâmicas. O resultado: a crítica de Dostoiévski ao socialismo do XIX é absolutamente pontual; já a de Pondé, completamente anacrônica. Pondé prova da taça do mesmo fel do século XIX, o que o torna romântico. Vivo aqui hoje, mas odeio no passado. Instrumenta-se por via do ódio expirado, não inaugura ódio novo. Seu romantismo transparece quando Pondé chuta túmulos, importa aversões doutros tempos para odiá-las hoje. Os objetos de suas análises são tangíveis, mas a amargura não lhe é contemporânea. O homem que busca sofrer como se sofria outrora. Perspectiva muito comum nas direitas conservadoras, aliás.
Vivo aqui hoje, mas odeio no passado
Aqui temos um ataque sumário ao que ele chama de aposta humanista moderna, certamente referindo-se aos projetos de Redenção de cunho marxiano, da revolução pela lógica, do esclarecimento dialético, das promessas de desalienação e domínio humano do mundo prático ( através do trabalho e da economia política). O humanismo naturalista certamente encontra lugar em praticamente todas as críticas contemporâneas ao surto positivista que certos materialistas-dialéticos tomaram por base. Nisso, Pondé (e Dostoiévski) parecem acertar em suas suspeitas. Novamente e novamente, críticas bem fundadas, mas orientadas contra sonhos sepultados, o que me parece ser uma constante das reflexões das direitas contemporâneas. Como se, na quinta república, vivessem buscando entraves na inocência dos Jacobinos da primeira, sendo que eles próprios foram assassinados por suas ideias prematuramente.
Positivismo abarca socialismo e capitalismo
Pondé foca, corretamente, em minha leitura, nos diagnósticos parciais, hoje inegáveis; a troca das divindades pelo assassínio do deus cristão pelos modernos. A troca, como cito aos ventos, é a do Mistério pela Maestria. Nietzsche em sua paródia de Diógenes do homem da lanterna dizia, em Gaia ciência, que as igrejas eram túmulos, o cheiro da putrefação de deus já se sentia, ou seja, não se tratava de um crime recente. A racionalização, primeiro como instrumento de exercício de investigação do mistério já dava sinais primordiais de que nos permitiria construir as asas para fora do dédalus, do labirinto dos sentidos. Nietzsche, quem, inclusive, já havia farejado princípios dessa racionalização autônoma dos mistérios desde Sócrates, no que chamou de “problema de Sócrates” em Genealogia da Moral de 1887; a “verdade” alcançada de costas para o mundo, mas ilações racionalistas que, como cebolas (constará nos manuscritos póstumos), encadeiam-se em lógicas discursivas que, camada após camada, afastam-nos da realidade lá fora. Sócrates é evidência da instrumentação autônoma do pensar no começo do projeto do ocidente. E sobre isso, Dostoiévski, Nietzsche, Pondé (e eu), concordamos, dadas suas distintas dimensões para uma comparação ridícula como essa. Mas Pondé parece seguir os ventos circulares do tempo da crítica, e se move para o XIX para de lá, julgar o mundo atual. Acredito que aí resida seu erro. Podemos partir do positivismo, a prepotência humana da gestão, pelas exatas mesmas razões das críticas ao "positivismo naturalista de mercado" e suas leis inerentes de relação e valoração humanas.
E a confusão toda é causada porque quando lê, por exemplo, na crítica de Dostoiévski à fuga do sofrimento, à busca da sociedade da felicidade gerida pelos peritos na felicidade humana, tudo isso aparece como brilhante diagnóstico de Dostoiévski no XIX da modernidade, e que hoje em dia, mesmo após perestroika, encontramos como perfeitos preceitos administrativos do capitalismo, das fintechs, das indústrias farmacêuticas, do lifestyle, do entretenimento e das influências. Pondé supôs, como Dostoiévski supunha, quando importada a mala do passado de memórias raivosas, que a administração da vida seria apenas centralizada, totalitária, quando todas essas mesmas questões hoje recaem - e Dostoiévski não teria como saber - em uma sociedade plenamente liberalizada por preceitos não menos metafísicos de sujeição da competição comercial. Pondé não identifica o mesmo vazo após cair e se fragmentar.
O hegelianismo de fundo permanece o mesmo, é o Deus morto reencarnado no mercado (não mais na história) sacralizada. Talvez ficasse mais claro esse deslize, se Pondé tivesse dado ouvidos ao que acusa de “humanismo pós-estruturalista”, porque o alerta havia sido justamente sobre a decentralização de qualquer legitimidade do poder; o socialismo centralizado desmantelou, é uma caricatura, embarcamos na liquidez ou na microfísica dessas crenças transcendentais. O Dostoiévski de Pondé o leva até meia-onda, d’onde Pondé salta precocemente. Uma mente brilhante, mas de outro tempo.
O dostoievskismo de Pondé é unilateral. Pondé embarca na crítica do berço da modernidade industrial sobre a maestria, mas não reconhece suas novas formas contemporâneas. Lê as metáforas de Dostoiévski contra o mundo da lógica dos positivistas apenas contra o “Palácio de Cristal”, a figura metafórica do XIX do mundo socialista. Mas o Palácio de Cristal já desmoronou (o que ficava em Londres como prova do domínio racional da civilização pegou fogo, na verdade) e hoje temos particularidades de cristal fragmentárias e individuais, adquiridas a 26x no cartão. E pior, a suposta maestria racional humana dos projetos socialistas deram espaço para uma metafísica da gestão pelo termo ermo do "mercado".
Seguirei a reflexão...
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📚 Meus livros
1️⃣ Seremos Dados - A filosofia da perda do espaço humano para a inteligência artificial
2️⃣ O Universo dos Sonhos Técnicos - Como as inteligências artificiais redefinirão nossa imaginação
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